O Brasil atravessa um momento decisivo. Com o segundo turno das eleições presidenciais previsto para amanhã, 19 de outubro de 2026, cresce a dúvida: faz sentido contratar um empréstimo pessoal agora ou é melhor aguardar o resultado nas urnas? A resposta mistura fatores econômicos, políticos e comportamentais que impactam diretamente a oferta de crédito e as taxas de juros no país.
Hoje a Selic está em 14,75% ao ano — o maior nível desde 2007. Esse patamar já tornou o crédito ao consumidor consideravelmente mais caro. No crédito pessoal não consignado, a taxa média cobrada nos bancos tradicionais fica entre 4% e 7% ao mês, de acordo com dados do Banco Central. Fintechs como Nubank, Inter e C6 Bank costumam cobrar um pouco menos para clientes com bom histórico, mas o custo continua pesado para o trabalhador comum.
A incerteza eleitoral tende a acrescentar mais uma camada de tensão nesses números. Em geral, as instituições financeiras ficam mais conservadoras na hora de conceder crédito quando não sabem qual será o rumo econômico do próximo governo — ou quando há dúvida sobre uma mudança na orientação do atual. O resultado é aprovação mais restritiva, limites menores e, em alguns casos, taxas um pouco mais altas para clientes considerados mais arriscados.
O que pode mudar depois do resultado?
Vença quem vencer, o mercado financeiro já tem clareza de que a Selic não vai despencar em 2026. O Copom (Comitê de Política Monetária) tem reforçado que qualquer corte dependerá do comportamento da inflação e do câmbio, que ainda flerta com os R$ 5,07 por dólar. Logo, não dá para esperar que o custo do empréstimo pessoal desabe logo depois das eleições.
O que costuma acontecer, na prática, é a redução da incerteza. Com o novo governo definido e as diretrizes econômicas no radar, a concessão de crédito tende a se normalizar. Os bancos voltam a projetar com mais segurança, o que pode destravar aprovações — especialmente para quem tem renda estável e bom score.
Vale contratar agora ou esperar o resultado?
A resposta depende da sua realidade. Se você está diante de uma emergência — uma conta de hospital, um conserto urgente no carro que impede você de trabalhar, uma dívida que avança em juros maiores do que os do empréstimo —, esperar pelo desfecho eleitoral pode sair caro. Nesse cenário, pegar o crédito hoje com a taxa disponível pode ser a decisão mais racional.
Por outro lado, se não há urgência, pode valer esperar de duas a três semanas após a definição do segundo turno. O mercado costuma reagir rápido a eleições, e esse período de acomodação ajuda a enxergar o rumo das taxas — para melhor ou pior.
Outro ponto importante: não contrate baseado em promessa de queda de juros que ainda não aconteceu. É comum ver manchete otimista no pós-eleições, mas o crédito ao consumidor leva meses para refletir a política monetária. Uma Selic que recua em fevereiro pode demorar até seis meses para aparecer de forma clara nas taxas que o banco oferece no balcão.
Como negociar melhor nesse cenário?
Uma das maiores ferramentas disponíveis ao consumidor hoje é a portabilidade de crédito. Se você já tem um empréstimo ativo pagando taxa alta, pode pedir a portabilidade para outra instituição com condições melhores. O Banco Central simplificou o processo e ele pode ser feito pelo Open Finance, que permite a diferentes bancos acessarem seu histórico para oferecer propostas mais competitivas.
Além disso, vale simular em vários canais antes de fechar qualquer coisa. Comparar a oferta do seu banco de relacionamento com fintechs e cooperativas de crédito pode gerar economia relevante no decorrer do prazo. Uma diferença de apenas 1% ao mês num empréstimo de R$ 10.000 em 24 parcelas significa mais de R$ 1.200 pagos a mais no total.
O momento eleitoral também pode ser favorável para quem precisa renegociar dívidas já existentes. Em geral, instituições financeiras oferecem condições especiais em períodos de maior cautela, para manter a carteira ativa e segurar a inadimplência. Pegue o telefone, ligue para o banco e pergunte diretamente sobre renegociação — não espere eles correrem atrás de você.
Fintechs: alternativa real no atual cenário?
Nubank, Inter, C6 Bank, PicPay e Neon vêm ampliando suas ofertas de crédito pessoal mesmo com Selic nas alturas. A vantagem está na agilidade da análise, no processo 100% digital e na capacidade de personalizar propostas com base no comportamento financeiro do cliente dentro do app. Para quem movimenta conta, usa cartão e mantém saldo regularmente, as taxas podem ser bem menores do que nos bancos tradicionais.
Um alerta importante, porém: nem sempre a fintech é a melhor pedida. Em alguns casos, bancos tradicionais com os quais você tem relacionamento longo oferecem condições mais atraentes, principalmente se você tem renda domiciliada ou investimentos lá. A regra é não assumir que um tipo de instituição é sempre superior — compare sempre.
O que acompanhar depois das urnas
Nos dias seguintes ao segundo turno, três indicadores merecem atenção: o comportamento do dólar (câmbio mais calmo favorece queda de juros no futuro), as sinalizações do Banco Central sobre a Selic e o movimento do crédito imobiliário — que costuma ser o primeiro a reagir à política monetária e serve como termômetro para o crédito pessoal.
Se o cenário político se arrumar sem grandes turbulências e o câmbio se acomodar abaixo de R$ 5,00, aumenta a chance de o Copom começar a sinalizar cortes na Selic no início de 2027. Isso não barateia o empréstimo pessoal da semana que vem, mas pode melhorar as condições daqui a três ou quatro meses — relevante para quem tem flexibilidade de esperar.
Em resumo: o momento eleitoral não é automaticamente ruim para quem precisa de crédito, mas pede mais atenção e comparação do que o habitual. Com a Selic no teto histórico recente e o mercado em modo cauteloso, a diferença entre uma boa e uma má decisão de empréstimo pode estar nos detalhes — e nos minutos que você investir em simular antes de assinar.
