Bacen 2026: cartão adicional e aumento de limite exigem autorização expressa

Se você tem um cartão adicional no nome de um filho, cônjuge ou familiar — ou se o banco já aumentou seu limite sem você pedir — precisa saber o que mudou em 2026. O Banco Central do Brasil colocou em prática novas regras que obrigam as instituições financeiras a obter autorização expressa do titular antes de emitir um cartão adicional ou elevar o limite do crédito. Parece simples, mas na prática representa uma virada na relação entre banco e cliente.

O que é o cartão adicional e por que ele virou alvo de regulação

O cartão adicional é aquele emitido para uma terceira pessoa — geralmente dependente ou familiar — vinculado à mesma conta e ao mesmo limite do titular. Na prática, o filho compra, o pai paga. O problema é que muitos bancos aproveitavam a modalidade para ampliar o crédito total concedido sem que o titular percebesse com clareza o risco assumido.

Durante anos, a emissão de um cartão adicional foi simplificada ao máximo: bastava o banco identificar uma oportunidade (ou receber solicitação de um atendente que vendia o produto como benefício) e o cartão era enviado. Em alguns casos, o titular sequer sabia que havia aprovado a emissão. Esse modelo favoreceu um tipo de venda casada disfarçada e contribuiu para o endividamento de famílias inteiras comprometidas com o limite de uma única conta.

A nova regra do Bacen: o que mudou de vez

A partir de 2026, a emissão de qualquer cartão adicional — físico ou virtual — exige autorização expressa e registrável do titular. Não basta o banco ligar e o cliente dizer “pode mandar”. A autorização precisa ser comprovável e pode acontecer por um dos seguintes canais:

  • Aplicativo do banco, com confirmação via biometria ou senha
  • Internet banking com autenticação registrada
  • Ligação telefônica com gravação disponível para consulta
  • Contrato assinado presencialmente ou por assinatura eletrônica com validade jurídica

Isso elimina o cenário em que um gerente convencia o cliente por telefone sem registro ou em que o cartão aparecia na fatura como uma “surpresa”. A nova exigência vale para todos os bancos e fintechs que operam no Brasil e emitem cartões de crédito regulados pelo BC.

Fim do aumento automático de limite

Tão importante quanto a regra do cartão adicional é a proibição do aumento automático de limite. Antes de 2026, era comum receber um SMS no estilo “Seu limite foi aumentado de R$ 2.000 para R$ 3.500”. Algumas pessoas ficavam felizes. Outras nem percebiam. E algumas acabavam usando esse limite sem ter planejado e se endividando mais do que podiam pagar.

Agora isso está proibido. Um simples SMS informativo não basta mais. O banco precisa obter consentimento ativo do cliente para qualquer alteração de limite — para cima, ou para baixo quando a iniciativa vier dele. O cliente que quiser o aumento continua podendo solicitar normalmente, mas a iniciativa tem que partir dele, não da instituição financeira.

A lógica por trás dessa mudança é direta: crédito que o cliente não pediu é crédito que o cliente pode não conseguir pagar. O Banco Central entendeu que a facilidade excessiva de acesso ao limite contribuiu para o superendividamento de parte da população.

Por que essa regra chegou agora

O contexto importa. Em 2024, o Bacen já havia fixado o teto de juros do crédito rotativo — o encargo que incide quando se paga menos que o total da fatura — em 100% do valor original da dívida. Em outras palavras, uma dívida de R$ 1.000 não pode se transformar em mais de R$ 2.000, independentemente do tempo que fique no rotativo.

A regulação sobre cartões adicionais e limites automáticos segue a mesma linha: proteger o consumidor da oferta irresponsável de crédito. O Brasil tem uma das maiores taxas de juros ao consumidor do mundo, e o cartão sempre foi o produto que mais aprisionou famílias em ciclos de dívida. O regulador resolveu intervir nos dois extremos: nos juros depois que a dívida aparece e no volume de crédito antes que ela apareça.

O que você deve fazer agora

Se ainda não revisou a sua situação, vale tomar algumas ações práticas:

1. Revise os cartões adicionais ativos

Acesse o aplicativo do banco e veja quantos cartões adicionais estão vinculados à sua conta. Se houver algum que você não lembra de ter autorizado de forma explícita, entre em contato com o banco e peça cancelamento imediato. Você tem direito de revogar a autorização a qualquer momento.

2. Verifique os aumentos de limite dos últimos meses

Se o limite subiu nos últimos meses sem solicitação sua, vale contestar com o banco — sobretudo se o aumento aconteceu antes de março de 2026, quando a regra entrou em vigor de forma plena. Para aumentos feitos depois dessa vigência sem autorização registrada, dá para registrar reclamação no Banco Central via Registrato ou no portal Consumidor.gov.br.

3. Mantenha controle do limite total

Com cartões adicionais, o limite total é compartilhado. Se o seu limite é de R$ 5.000 e o adicional do seu filho consumir R$ 3.000, sobram R$ 2.000. Muita gente perde o controle disso. Defina um sublimite para cada adicional — a maioria dos aplicativos já permite essa configuração.

Como os bancos estão se adaptando

Instituições como Nubank, Itaú, Bradesco, Inter e C6 Bank já atualizaram os fluxos de solicitação de cartão adicional nos aplicativos. O processo ficou mais longo, com telas de confirmação e aceite explícito dos termos, mas isso é exatamente o que a norma exige. Alguns bancos também enviaram comunicados a clientes que já tinham adicionais emitidos antes da regra, pedindo ratificação da autorização.

Se o seu banco não entrou em contato e você tem adicionais ativos há tempo, vale conferir no app se a autorização está registrada — e, caso não esteja, decidir entre manter ou cancelar.

O que essa mudança representa para o consumidor

Em termos práticos, a nova regra devolve ao titular do cartão o controle sobre o próprio crédito. Pode parecer burocracia, mas é proteção. O crédito fácil sempre foi conveniente para os bancos — e nem sempre para os clientes. Com a exigência de autorização expressa, qualquer expansão do risco de crédito passa obrigatoriamente pela decisão consciente de quem vai pagar a conta.

Para famílias que usam adicionais de forma planejada, a mudança é quase imperceptível. Para quem estava sendo incluído em dívidas sem perceber claramente o impacto, é uma proteção real. O Banco Central raramente age rápido — quando age, vale entender o porquê.

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